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O lugar incômodo da análise

  • Foto do escritor: Clarisse Brum Pires
    Clarisse Brum Pires
  • 14 de mai.
  • 1 min de leitura

A psicanálise não é, e nunca pretendeu ser, um refúgio de conforto imediato. Pelo contrário, o consultório é frequentemente o lugar onde o "bem-estar" educado dá lugar ao mal-estar constituinte. Entrar em análise é aceitar o convite para habitar um lugar incômodo.


Freud já nos alertava que o preço que pagamos pela civilidade é a renúncia pulsional. No setting analítico, essa renúncia é colocada em xeque. O incômodo surge porque a terapia nos retira da posição de "vítimas do destino" para nos colocar como implicados em nosso próprio sofrimento.


O desconforto é o sinal de que a resistência está sendo tensionada. Quando o analisante diz "não quero falar sobre isso" ou sente o silêncio do analista como um peso insuportável, ele está tocando naquilo que Lacan chamou de Real, aquilo que foge às palavras, que não faz sentido e que angustia. É assim que observamos a relação de Wandinha com o processo analítico, ela prefere fugir do que encarar suas questões mais profundas.


O objetivo final não é eliminar o desconforto para sempre, mas mudar nossa relação com ele. Atravessar esses lugares difíceis permite o que a psicanálise chama de atravessamento da fantasia. Deixamos de ser reféns das histórias que contamos a nós mesmos para suportar a vida e passamos a suportar a existência com menos ilusões e mais autonomia.


Portanto, se a terapia está incomodando, se o caminho parece tortuoso e se há vontade de fugir, saiba: é exatamente aí que o trabalho começou.


Série: Wandinha (Netflix)

 
 
 

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